sexta-feira, 30 de junho de 2017

Cidades Invisíveis

Alexander Brodsky e Ilya Utkin



Descobri os trabalhos de Alexander Brodsky e Ilya Utkin a partir de um pequeno quadro, isolado e com pouco destaque, perdido numa sala do enorme museu Victoria & Albert, em Londres. Nos últimos anos este tipo de trabalhos, que constroem arquitecturas impossíveis através da repetição e sobreposição algo delirante de diferentes elementos, tornou-se comum, tanto em ilustração como em fotografia, e eu tendo a gostar quase sempre dos resultados. Ainda assim, poucas vezes vi o conceito aplicado de uma forma tão brilhante. Mais tarde ou mais cedo vou ter uma impressão na minha parede, e isto entrou directamente para a minha lista de desejos.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Bill Callahan | All thoughts are prey to some beast

An eagle came over the horizon
And shook the branches with its sight
The softer thoughts: starlings, finches, and wrens
The softer thoughts, they all took flight

(...)

All thoughts are prey to some beast

All thoughts are prey to some beast
 Sweet desire and soft thoughts, return to me

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Elevador

Lisboa | Junho 2017


"Há a procura deliberada do excepcional e há aquilo que aparece inesperadamente e que só se revela quando a fotografia foi revelada. As maneiras como isto acontece não têm importância e se uma irrupção não procurada é talvez mais bela e mais intensa, também é bom que o fotógrafo pára-raios saia para a rua com a esperança de a encontrar; qualquer provocação de forças não legisláveis alcança alguma vez a sua recompensa, embora possa acontecer de surpresa e, inclusivamente, como pavor."
"Janelas Para O Insólito", in Papéis Inesperados, Julio Cortázar

Entrei no prédio atraída pelas portas vermelhas; encontrei as silhuetas de luz e sombra do velho elevador. Creio que tive a minha recompensa - embora tenha voado para fora do edifício assim que ouvi uma chave girar numa porta.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Serendipity



"Which makes me think of a 1920s in which nobody minded when people vanished or transformed into birds."
Neil Gaiman, acerca desta fotografia.


"Tende-se a pensar na fotografia como um documento ou como uma composição artística; ambas as finalidades se confundem às vezes numa só: o documento é belo ou o seu valor estético contém um valor histórico ou cultural. Entre essa dupla proposta ou intenção desliza algumas vezes o insólito como o gato que salta para um palco em plena representação, ou como aquele pardalinho que uma vez, quando eu era jovem, sobrevoou prolongadamente a cabeça de Yehudi Menuhin que tocava Mozart num teatro em Buenos Aires. (Afinal de contas não tão insólito quanto isso; Mozart é a prova perfeita de que o homem pode fazer aliança com o pássaro)."
"Janelas Para O Insólito", in Papéis Inesperados, Julio Cortázar

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Romantismo

"Da minha parte, sou sensível também às circunstâncias culturais dos textos, e até às empíricas. Imagino, com comoção, a extracção do barro às margens do Eufrates, para que nele se pudessem inscrever narrativas. Imagino essas placas, inscritas com arcanos e palavras capazes de sustentar o universo humano, a secar ao sol ou a cozer nos fornos em que também se fazia o pão. Tudo isso me faz pensar num assombro que emanaria da palavra escrita e que já não estamos em condições, talvez, de determinar. Serei talvez vítima da ilusão que costuma confundir o mais antigo com o mais primordial. Mas ao ler os textos mesopotâmicos, em especial o Gilgamesh, sinto-me sempre (talvez ingenuamente) à espera de surpreender os passos perdidos dessa seriedade abismal sem a qual a literatura não poderia ter vindo à existência."

Francisco Luís Parreira, em entrevista ao Ípsilon acerca da sua tradução para Português do Gilgamesh (02.06.2017) 

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Consciência

"Alguma divulgação bem intencionada costuma proclamar que o poema de Gilgamesh é o texto mais antigo do mundo. Não é (e qual seja é impossível de determinar). É, no entanto, a narrativa que os mais antigos leitores do mundo mais se preocuparam em preservar e copiar. (...)
Mais importante do que isso, é talvez o facto de se constituir como o primeiro texto centrado numa personagem, isto é, um centro de conflito entre o desejo e a ordem objectiva do mundo. Trata-se de uma figura para a qual a morte própria constitui o acontecimento primordial da sua existência."

Francisco Luís Parreira, em entrevista ao Ípsilon acerca da sua tradução para Português do Gilgamesh (02.06.2017)

Leitores

"Esta edição ambiciona servir simultaneamente o leitor leigo e o especialista. São conciliáveis?

A resposta é um sim enfático. Um especialista é apenas um leitor leigo mais tenaz (ou menos parcial). Estão ambos abrangidos por uma velha máxima aristotélica que todos os dias encontro comprovada: todos os homens desejam naturalmente saber. Nem sempre encontro comprovação de que esse desejo se queira relacionado com livros, é certo, mas não custa nada tentar."

Francisco Luís Parreira, em entrevista ao Ípsilon acerca da sua tradução para Português do Gilgamesh (02.06.2017)

Tradução I

"Não existindo um texto de partida pacífica e definitivamente estabelecido, esta não é uma simples tradução. O que procurou alcançar com as opções editoriais feitas?

(...) Para responder à sua pergunta: procurei, antes de mais, a melhor articulação possível de fontes que provêm de lugares, línguas e até milénios diferentes, e que são incompletas e, muitas vezes, mudas quanto ao seu lugar e relevância. "Melhor" significa aqui: inteligível quanto à narrativa e correspondendo a uma aproximação ideal das intenções do compilador babilónio." 

Francisco Luís Parreira, em entrevista ao Ípsilon acerca da sua tradução para Português do Gilgamesh (02.06.2017)

Tradução II

"(...)  dê-se por favor aos suplício de imaginar uma versão em prosa das Elegias do Duíno ou do Cimitière Marin. Chamar-lhe-ia tradução? Parece-me que soluções desse tipo padecem de dois pecados: orçam por cima a boa-fé do leitor e acumulam capital autoral na pessoa do tradutor, que desse modo se deixa equiparar a uma espécie de paraíso fiscal da poesia."

Francisco Luís Parreira, em entrevista ao Ípsilon acerca da sua tradução para Português do Gilgamesh (02.06.2017)

Erudição

"Contrariando uma tendência de anos recentes, exemplificável com algumas traduções de Homero feitas por Frederico Lourenço, optou por uma tradução e por uma edição ostensivamente eruditas. Porquê?
 
(...) Mas permita-me que conteste a sua ideia de uma tendência recente, tal como a descreve. Estou inclinado a supor que essa tendência pertence mais ao foco mediático do que aos factos. Acabei de ler, por exemplo, uma edição recente, da Gulbenkian, dos Textos da Literatura Egípcia do Império Médio, da autoria de Telo Ferreira Canhão, e recordo como exemplo de como ler e editar um texto a edição dos professores Mário Jorge de Carvalho e Nuno Ferro do maravilhoso texto de Kierkegaard, Adquirir a sua Alma na Paciência, na Assírio & Alvim.
São traduções eruditas, no sentido que evoca, e relativamente recentes; apesar de extraordinárias, e de se aprender mais com elas do que com um trimestre inteiro de edição industrial, creio que nenhuma delas mereceu qualquer menção na crítica impressa. Espero entretanto que a tendência de que fala não resulte na depreciação do que é "erudito". Embora não tenha um amor excessivo a essa palavra, assinalo que certos textos, para se revelarem, precisam de uma conversa prévia ou periférica e de alguém que se coloque em situação de iniciá-la. Eu, por exemplo, ainda hoje não sei que canção cantaram as sereias a Ulisses e bem gostaria que houvesse alguém a dizer-mo."

Francisco Luís Parreira, em entrevista ao Ípsilon acerca da sua tradução para Português do Gilgamesh (02.06.2017)